A Histórica de um Pai

Casamento de Zé e Sônia. Arquivo pessoal.

 

Zé Coimbra nasceu em Capelinha do Chumbo, em uma enluarada noite de quinta-feira dia 05 do mês de outubro, do Ano da Graça de Nosso Senhor de 1933. Era o filho do meio, de três, que o casal, Artur e Auzônia, legaram ao planeta Terra.

Aos quatro anos de idade, começou a trabalhar ajudando seu pai a montar e vender colchões de palha. Aos sete, com a família já migrada para Patos de Minas, depois de aprender a ler, largou a escola e começou a trabalhar em uma oficina mecânica, onde aprendeu sua profissão. Nessa mesma época, conheceu algo que o acompanharia o resto da vida, o cigarro. Autodidata, tornou-se um lateiro de primeira e pintor primoroso. Fazia mágica desamassando com perfeição os carros e misturando cores para pintá-los depois, deixando-os como novos e exclusivos.

Quando terminou a adolescência, mudou-se sozinho para Uberlândia. Hospedou-se na pensão Guanabara e logo arrumou emprego em uma oficina mecânica, no centro da cidade. Durante o famoso vai e vem que acontecia na praça Tubal Vilela, geralmente depois da sessão das seis no Cine Theatro Uberlândia, conquistou o coração de uma professora de dezenove anos, de nome Sônia. Casaram, mudaram para Coromandel e receberam de Deus quatro filhos.

Zé era um desenhista talentoso que, aos poucos, perdeu seu dom, enquanto seus dedos engrossavam e perdiam a mobilidade, devido ao seu trabalho com os martelos.  Sua paixão era a pescaria. Enquanto morava em Coromandel, pescava todo final de semana no rio Paranaíba. Até jacaré trazia. O maior peixe que já fisgou, tão grande que não cabia na carroceria da camionete, lutou bravamente durante horas e conseguiu arrebentar a linha fugindo em seguida. Ele tinha até testemunha dessa peleja.

Certa vez, voltando de uma das pescarias, trouxe dois filhotes de capivara. Um morreu na noite seguinte, vítima de gatos. O outro fez companhia para a família durante quase dois anos. Foi o bichinho de estimação dos filhos até desaparecer, provavelmente por um dos buraco da cerca de tela do quintal da casa.

Zé nunca se preocupou com o futuro. Trabalhava para o sustento do dia. Não tinha vaidades nem orgulhos fúteis. Só fazia questão de estar sempre barbeado e o cabelo, que ele mesmo cortava, sempre impecável, penteado para trás e acomodado. Substituiu o cinto da calça por um cordão amarrado. Não gostava de sapatos. Estava sempre com sua sandália franciscana ou chinelo. Uma vez convidaram-no para participar da maçonaria. Ele não aceitou porque tinha que usar terno.

De volta para Uberlândia na década de 1980, onde terminou de criar seus filhos, trabalhou na oficina do Gerson, em um galpão em frente à face esquerda da praça Rui Barbosa. Ainda pintava, apesar dos pulmões reclamarem. Fazia com cuidado e destreza de artesão, as faixas decorativas de um Ford Landau como se estivesse pintando um quadro.

Nos últimos anos de vida, sua rotina era ir de bicicleta para a oficina do Job, a última onde trabalhou, na avenida Rio Branco esquina com rua Tenente Virmondes. Em casa, relaxava com a televisão, o café e o cigarro, seu companheiro desde os 7 anos de idade. Seu jeito de ser conquistava todas as pessoas, de peão a juiz. Era sócio honorário de um clube de pesca em Coromandel, onde não chegou a ir. Os sócios deixaram seu nome gravado em uma placa comemorativa.

Com 59 anos de idade, reclamando de algumas dores, foi obrigado a visitar um médico, pela segunda vez na vida; a primeira vez foi obrigado a ir, dois anos antes, devido a uma pneumonia. Após alguns exames, foi aconselhado a parar de trabalhar e fumar por algum tempo. 15 dias depois, partiu desse mundo, deixando saudades em todos que o conheciam.

Até breve, Pai.

Pensão Guanabara, esquina das avenidas João Pessoa e Afonso Pena. Foto divulgação.
Pensão Guanabara, esquina das avenidas João Pessoa e Afonso Pena. Foto divulgação.

 

Cine Theatro Uberlândia, foi o maior cinema de Minas Gerais na época de sua inauguracão. Foto divulgação
Cine Theatro Uberlândia, era o maior cinema de Minas Gerais quando de sua inauguração. Foto divulgação

 

Praça Tubal Vilel, década de 1960, local dos famosos vai e vêns que originaram muitos casamentos . Foto – divulgação
Praça Tubal Vilela, década de 1960, local dos famosos vai e vem que originaram muitos casamentos . Foto – divulgação

 

Zé e Sônia, em 1989. Arquivo pessoal.
Zé e Sônia, em 1989. Arquivo pessoal.

 

 

5 Comentários

  1. Eu e o Orcalino ,acho que antes da adolescência, cantávamos no programa , na rádio Difusora. O programa era comandado pelo Roberto Bernardino, que se encontra por aqui e pela apresentadora,Ely Moreira Franco.Ela , não sei do seu paradeiro mas, sei que tem haver com uma pessoa que foi patrão do seu pai. Sabe de algo desse época? Beijos!!!

    • Oi, Tia, Tudo bem? Pois é, o tempero dele era especial, e também fazia melhor ambrosia que já comi. Faltou falar sobre esse talento de cozinheiro que ele tinha na crônica. Grande abraço.

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